Análise

Qual o impacto da automatização no mercado de trabalho?

por EDULOG


21 de setembro de 2018 |

Inovações tecnológicas, como a automatização e a digitalização, estão a mudar o trabalho. Criam-se novas profissões, extinguem-se outras. No centro destas transformações, como estão os trabalhadores a adaptar-se? O relatório “Job Creation and Local Economic Development 2018”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), mostra que a geografia tem uma palavra a dizer em tudo isto. Certas regiões estão mais vulneráveis ao desemprego e à exclusão do mercado de trabalho do que outras.

É certo, diz a OCDE, que o impacto da automatização nos empregos vai ser desigual nas diferentes regiões dos 21 países-membros desta organização. De modo geral, o risco da automatização atinge uma elevada percentagem de empregos em todas as regiões. Mas afeta quase 40% dos empregos, por exemplo, na Eslováquia Ocidental. E apenas 4% dos empregos na periferia de Oslo, na Noruega. No mesmo país, a diferença regional da percentagem de empregos em risco pode ser mais ou menos acentuada. Por exemplo, em Espanha, entre as regiões com melhores e piores resultados, a percentagem diverge em 12%; no Canadá apenas em 1%.

A “boa notícia”, diz ainda a OCDE, “é que desde 2011, a maioria das regiões (60%) conseguiu criar mais empregos com menor risco de automatização do que os empregos perdidos em setores de elevado risco de automatização”. Como o conseguiram? Os dados recolhidos neste relatório mostram que as regiões com menos empregos em setores de elevado risco de automatização têm três características: trabalhadores altamente qualificados (em termos académicos), um setor de serviços transacionáveis forte e estão altamente urbanizadas. No reverso, regiões com baixa produtividade e desemprego correm maior risco de serem afetadas pela automatização no futuro. Significa que, nestas regiões, se podem agravar as desigualdades nas condições de emprego local.

“Os decisores políticos estão confrontados com compromissos difíceis entre a necessidade de fomentar a automatização, para aumentar a produtividade, e a necessidade de gerir perdas de emprego a curto e a médio prazo devido à automatização”, lê-se no relatório. Para eliminar as desigualdades nas condições de emprego, entre as diversas regiões, as políticas, diz as OCDE, devem apostar na requalificação profissional dos trabalhadores com empregos de risco elevado de automatização e mobilizar as entidades patronais para identificar as competências necessárias para o mercado de trabalho local.

Aumento do trabalho “atípico”

O relatório mostra também como as mudanças tecnológicas na natureza do trabalho estão a contribuir para o aumento do trabalho “atípico”. De 2000 a 2016 o trabalho temporário e parcial tem aumentado na maioria dos países da OCDE. Mas a realidade pode ser diferente no mesmo território: na Grécia, a percentagem de empregos atípicos aumentou 7% numa região, mas diminuiu 11% noutra. Em Portugal, no mesmo período, a percentagem de emprego temporário subiu de 20% para 22%. O emprego a tempo parcial também aumentou de 5% para 7%. Olhando para a vizinha Espanha, vê-se uma realidade diferente, com o emprego temporário a baixar de 32% em 2000 para 26% em 2016 e o emprego a tempo parcial a subir de 8% para 15%.

Em cerca de metade dos países da OCDE, sobretudo europeus, que participam no estudo de 2016 relativo à qualidade do trabalho, mais de 40% dos trabalhadores temporários disse estar nessa situação porque não conseguiam arranjar emprego permanente. Portugal e Espanha ocupam os dois últimos lugares entre os países com mais trabalhadores nesta situação, respetivamente 84% e 87%. Com menos trabalhadores a trabalhar de forma temporária por não conseguirem um emprego permanente estão a Islândia, com 5%, e a Áustria, com 9%.

De acordo com as evidências recolhidas, a OCDE refere que a escolaridade da população é um bom preditor da incidência de trabalho temporário. Regiões onde os trabalhadores não completaram o ensino secundário têm maior incidência de contratos temporários. Segundo a OCDE, isto está relacionado com o baixo nível de competências da força de trabalho. Mas também com a existência de empregos onde não são necessárias competências especializadas, o que torna fácil a substituição de um trabalhador por outro.

No entanto, a retoma económica caracteriza-se, precisamente, por um aumento dos contratos temporários, explica a OCDE. Apenas certas regiões da Alemanha, Irlanda e Reino Unido seguem um padrão diferente, criando emprego com contratos mais permanentes. Já no norte da França, em Portugal e em certas zonas da Itália e da Grécia, o emprego está a diminuir, enquanto a percentagem relativa do trabalho temporário está a aumentar. Quem são os grupos mais afetados? Mulheres, jovens e trabalhadores com pouca formação académica, “mas as características da economia local também são determinantes”, lê-se no relatório. Por exemplo, para os trabalhadores pouco qualificados, a probabilidade de ter um emprego temporário é mais elevada nas zonas rurais do que nas cidades. Regiões com um setor transacionável menor costumam dar mais emprego através de contratos temporários.

A OCDE alerta ainda para uma das implicações negativas da digitalização da economia: tem contribuído para formas precárias de emprego por conta própria, com menos ou nenhuma cobertura da segurança social. A tecnologia, apesar de aumentar a produtividade em muitos empregos, está a fazer com que alguns grupos fiquem excluídos do mercado de trabalho, presos ao desemprego, a empregos de salários baixos ou a trabalho atípico. Cerca de metade dos residentes nos países da OCDE vivem em regiões onde o aumento da produtividade é acompanhado por menos inclusão no mercado de trabalho.

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