Estudos

Competências socioemocionais: ter sucesso na escola e na vida

por EDULOG


27 de setembro de 2017 |

Fatores sociais e emocionais afetam a forma como os alunos aprendem. “As escolas têm que atender a estes aspetos para beneficiar todos os alunos”, defendem Ana Costa e Luísa Faria, autoras do artigo “Aprendizagem social e emocional: Reflexões sobre a teoria e a prática na escola portuguesa”, publicado na revista Análise Psicológica, em 2013. Mas será a escola capaz de potenciar a aprendizagem social e emocional dos alunos?

A aprendizagem social e emocional é entendida como o processo através do qual o aluno desenvolve a capacidade de integrar o pensamento, a emoção e o comportamento com o objetivo de realizar tarefas sociais importantes. Ao desenvolver estas competências, os alunos tornam-se aptos a reconhecer, expressar e gerir emoções, construir relações saudáveis, estabelecer objetivos positivos e a dar resposta a necessidades pessoais e sociais.

“De entre as competências relevantes, destacam-se a autoconsciência e a tomada de decisão responsável. Estas competências vão potenciar um melhor ajustamento e rendimento académico, refletido em comportamentos sociais mais positivos, menores problemas comportamentais, menor stresse emocional e melhores resultados em avaliações e testes”, explicam Ana Costa e Luísa Faria, investigadoras da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto.

Apesar dos benefícios de ensinar as crianças e os jovens a lidar com as emoções, em Portugal, apenas “um reduzido número de escolas conseguiu atuar estrategicamente para integrar, de forma eficaz, a aprendizagem social, emocional e académica dos alunos”, alertam as investigadoras.

Além da família, a escola e a sociedade têm um papel na promoção do desenvolvimento social e emocional das crianças e dos adolescentes. Partindo desta convicção, Ana Costa e Luísa Faria, realizaram um estudo para explorar as perceções de 12 docentes sobre a importância das competências sociais e emocionais dos alunos do ensino secundário.

Escola orientada para resultados

Os professores acreditam que a escola tem atualmente uma função mais alargada e exigente no que toca à formação global do aluno. E que deve contribuir para o desenvolvimento da “cidadania, valores e solidariedade” e prevenir “situações de risco e reforçar os fatores sociais de proteção”.

“Mais do que nunca espera-se da escola a tarefa de ultrapassar a mera transmissão de conteúdos e de assumir um papel preponderante na contribuição para a formação pessoal e social dos alunos”, dizem os professores entrevistados para o estudo. No entanto, consideraram que o currículo do ensino secundário está focado na promoção de aprendizagens ditas tradicionais e que o desenvolvimento de competências sociais e emocionais tende a ser “uma função não prioritária da escola”.

De forma geral, “a escola está orientada exclusivamente para os resultados”, alegam os professores. Apesar disso, reconhecem que a aprendizagem social e emocional permite ao aluno a abertura a “perspetivas diversas” que facilitam o seu posicionamento e a “compreensão do mundo que o rodeia”.

No ensino secundário, em particular, os docentes acreditam que as competências socioemocionais facilitam a progressão dos alunos, uma vez que lhes “possibilitam um maior autoconhecimento, facilitador e potenciador da tomada de perspetiva responsável sobre a importância desta etapa da vida escolar no futuro académico e profissional.”

Mas a “falta de tempo, de motivação e de preparação”, bem como o facto de a aprendizagem emocional e social “ser considerada por muitos como acessória”, não permitem à escola uma resposta adequada nesta matéria.

A introdução de disciplinas na área de desenvolvimento social e emocional constituiu, segundo os entrevistados, “uma mais-valia indiscutível na formação global do aluno”. Os professores consideraram que a disciplina de Formação Cívica e Área de Projeto fomentava a maior “estabilidade emocional”, “autoestima”, “confiança”, “disciplina”, “capacidade de resolução de problemas”, e “comportamentos sociais mais adequados”. Também “possibilitava aos professores e Diretores de Turma a “oportunidade de estar mais próximo e promover um desenvolvimento mais equilibrado do adolescente”

Nesse sentido, “a exclusão de disciplinas implementadas há tão pouco tempo, constitui, para os vários professores “algo de profundamente negativo: um retrocesso”. A solução? Fazer com “que as várias disciplinas, dentro dos limites possíveis, concorram para as finalidades de uma área como a do desenvolvimento pessoal e social”, dizem os professores.

“Só a nível da execução de um plano anual de atividades rico, coerente e variado, e com a participação das várias áreas disciplinares, será possível dar alguma resposta na via da formação dos alunos.”

Preparar para o sucesso na vida

De facto, argumentam as investigadoras Ana Costa e Luísa Faria, “os os alunos devem ser preparados não só para serem bem-sucedidos na escola, mas também para serem bem sucedidos na vida.” É aqui que reside a importância da aprendizagem social e emocional no contexto educativo

Os docentes partilham desta opinião. Mas argumentam que “a não existência de um plano a nível nacional de desenvolvimento social e emocional dos alunos, leva a que o investimento de cada escola na promoção destas áreas seja variável e, em larga medida, dependente dos seus próprios interesses e motivações.”

Exemplificando quais as estratégias promotoras dessas aprendizagens, os professores mencionam mais as de cariz extra-curricular, que, segundo as autoras, “por si só, têm um efeito limitado uma vez que não garantem que a aprendizagem social e emocional abranja todos os alunos.”

À semelhança do que acontece noutros países há ainda um longo caminho a percorrer na implementação da aprendizagem emocional e social, constatam as investigadoras. “A escola encontra-se cada vez mais pressionada na sua função de formar academicamente: como consequência da falta de tempo, de recursos, de orientações precisas de formação e de alterações curriculares.”

Porém, como as competências emocionais estão estreitamente ligadas ao sucesso académico, as investigadoras concluem que a eficácia coeducativo das escolas depende da sua capacidade de “focalizar os seus esforços na coordenação e integração das várias áreas, inclusive a socioemocional, otimizando o potencial dos alunos para virem a ser bem sucedidos na escola e ao longo da vida”.

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