Estudos

Como é que os professores ensinam Matemática?

por EDULOG


10 de agosto de 2017 |

Que estratégias utilizam os professores para ensinar Matemática? Como acham os alunos que aprendem melhor? Um estudo realizado, em 2012, numa escola do norte de Portugal, mostra as respostas de 161 estudantes do 9.º ano.

Várias investigações sugerem que os alunos aprendem melhor e têm mais sucesso à disciplina de Matemática quando o professor ensina utilizando estratégias de contextualização curricular. O que significa, por exemplo, fazer a ligação da matéria com situações do dia-a-dia ou assuntos que interessem os alunos, ou propor exercícios que relacionam os conteúdos. Mas um estudo realizado em 2012 por Carlinda Leite e Fátima Delgado, investigadoras da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, mostra que os professores não ensinam assim.

“As estratégias mais frequentes são de orientação tradicional e de aprendizagem por treino”, escrevem as autoras no artigo “Práticas Curriculares no ensino da Matemática: Perceções de alunos do 9.º ano de escolaridade e sua relação com a contextualização curricular”. O estudo foi realizado numa escola cujos resultados nos exames nacionais têm ficado abaixo da média nacional.

A visão dos alunos foi recolhida através de um inquérito por questionário com 15 perguntas que traduzem diferentes modos de trabalho pedagógico-didático. Fica claro que na sala de aula o professor opta por expor a matéria e a seguir propor exercícios para a turma resolver. Quase todos os alunos, 99%, dizem ser esta a estratégia usada sempre ou muitas vezes pelo seu professor. Para 91% é também a melhor forma de aprender.

Quando um ou vários alunos não percebem a matéria, 86% dos inquiridos diz que o professor procura explicar a matéria de outra forma. Mas 84% dos inquiridos diz que a estratégia que melhor contribui para a sua aprendizagem quando não percebe um exercício é o professor ir ao seu lugar e explicar individualmente o exercício. Já 82% dos alunos considera que aprende melhor quando o professor antes de dar uma nova matéria começa por recordar o que a turma já sabe, ou seja, quando faz uma contextualização curricular tendo em conta os conteúdos da disciplina. 75% dos alunos confirma que é assim que o seu professor faz nas aulas.

É menos usada a estratégia do professor propor exercícios e resolvê-los ele próprio no quadro, sem dar tempo a que os alunos os resolvam. No entanto, 21% dos alunos diz que esta é a maneira como o seu professor de Matemática ensina. Apesar de 64% dos alunos reconhecer que raramente aprende quando assim acontece. Outra das estratégias menos usadas na sala de aula, segundo os alunos, é o professor organizar grupos de trabalho para depois pôr os alunos a resolver exercícios.

Como é que os alunos aprendem melhor?

Estudos sugerem que os alunos aprendem pouco com estratégias mais centradas no professor, como a de ser ele próprio a resolver os exercícios. No entanto, nesta pesquisa, apenas 55% dos alunos considera que aprendem mais quando o professor propõe exercícios que relacionam conteúdos da Matemática com situações da realidade que eles conhecem. Ou seja, quando existem práticas de contextualização curricular por referência ao local.

“Segundo estes alunos, os professores recorrem muito a procedimentos de treino e é através desse treino que sentem que melhor aprendem. No entanto, a maior parte destes alunos reconhece também que não é com estratégias de mera exposição ou de demonstração que aprende”, constatam as investigadoras, sublinhando a necessidade de mais estudos suplementares para melhor compreender as razões destas perceções dos alunos.

Questionados sobre como são introduzidas as novas matérias, 44% dos alunos diz que o professor recorre muitas vezes ou sempre à estratégia de fazer a ligação com situações do seu dia-a-dia; 34% diz algumas vezes e 22% nunca ou raras vezes. Já 38% dos alunos considera que o professor ensina a matéria e vai fazendo ligações com assuntos do seu interesse, 37% diz que o professor usa esta estratégia algumas vezes e 25% nunca ou raras vezes.

A contextualização curricular pode também ter como referência o aluno, ao invés do contexto. Nesse caso, as estratégias para ensinar passam pela utilização por parte do professor das intervenções e das perguntas dos alunos para explicar a matéria, chamar o aluno ao quadro e ir resolvendo as dificuldades que ele tem, ou pela deslocação do professor ao lugar do aluno para lhe explicar individualmente o exercício.

Na verdade, na visão dos alunos a prática de ir ao lugar explicar de forma individual é usada com mais frequência pelo professor, com 65% dos inquiridos a responder que o seu professor de Matemática faz isso muitas vezes ou sempre e apenas 11% a dizer que raramente ou nunca. Para 54% dos alunos é frequente o professor utilizar a prática de os chamar ao quadro, 20% dos alunos diz que isso raramente ou nunca acontece na sua sala de aula. Já 53% dos alunos responde que o professor utiliza as suas perguntas ou intervenções para explicar a matéria, 13% diz que nunca ou raras vezes.

Analisando as respostas dos alunos sobre se estas estratégias o ajudam a aprender, os dados mostram que 84% dos inquiridos considera que aprende muitas vezes ou sempre quando o professor vai ao seu lugar explicar-lhe o exercício de forma individual. Com menos respostas, 69% dos alunos considera que aprende melhor quando o professor os chama ao quadro, 63% quando o professor ensina fazendo ligações das matérias a assuntos que lhes interessam e 62% quando o professor utiliza as intervenções e perguntas da turma para explicar a matéria.

As conclusões reforçam a ideia que a estratégia mais usada para ensinar a Matemática continua a ser a mais tradicional, ou seja a exposição e depois treino, entendida como a realização de exercícios. Também é assim que os alunos acreditam que aprendem melhor.

As autoras lamentam que os resultados estejam “longe da desejada intenção que acompanhou a renovação desta disciplina” e também “longe de um procedimento curricular que tenha por referência lógicas de contextualização”. Mas estão convencidas que “o facto de os alunos considerarem que é com as estratégias de treino que mais aprendem pode decorrer de ser com elas que convivem, ou seja, estarem pouco familiarizados com outro tipo de estratégias”.

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