Análise

Mesa-redonda: A rádio escolar como ferramenta educativa

por EDULOG


12 de fevereiro de 2026 |

A rádio escolar afirma-se como um espaço privilegiado de cidadania, inclusão e literacia mediática. Para assinalar o Dia Mundial da Rádio (13 de fevereiro), três especialistas refletem sobre como transformá-la numa prática educativa consistente e integrada no quotidiano escolar.

Feitas por alunos e com impacto real nas comunidades educativas, as rádios escolares permitem desenvolver competências sociais, cívicas e comunicacionais. E não só: dão voz a alunos, de uma forma que dificilmente encontra paralelo noutros espaços da escola.

Ainda assim, apesar deste potencial, a rádio escolar surge, na maior parte das vezes, como um projeto lateral, dependente de pessoas-chave, vivido à margem do currículo e associado a momentos pontuais. E a sua implementação continua frequentemente ligada ao voluntarismo de professores particularmente motivados.

Para assinalar o Dia Mundial da Rádio (13 de fevereiro), o EDULOG lançou a três intervenientes o mesmo mote:

“De que forma pode a rádio escolar responder aos atuais desafios da educação? E como passar de projetos isolados para uma prática educativa consistente?”

Nesta espécie de “mesa-redonda”, cruzamos as perspetivas de Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho; Maria José Barroso, professora bibliotecária e orientadora da Rádio Escolar Splash, na Escola Básica (EB) de Piscinas - Olivais, em Lisboa; e Verónica Milagres, cofundadora e diretora da Rádio Miúdos, entidade que dinamiza também o projeto Rádio-Escolas. Em comum, as três responsáveis não hesitam em destacar os benefícios que a rádio escolar pode trazer para os alunos participantes.

Um laboratório de cidadania dentro da escola

No âmbito de um projeto de investigação desenvolvido ao longo de quatro anos, Sara Pereira, do CECS, coordenou estudos de caso sobre meios de comunicação escolares. A rádio foi um dos objetos centrais dessa análise e, logo na introdução do livro que resultou desse trabalho, surge uma ideia estruturante: “os meios de comunicação escolares, onde se inclui a rádio, são um laboratório de cidadania”.

A expressão traduz uma realidade observada no terreno. “É um conjunto tão vasto de competências que os alunos desenvolvem que, às vezes, até é difícil identificá-las todas”, explica. Ainda assim, alguns padrões são claros: “aquilo que observamos são alunos mais envolvidos, mais empenhados na sua própria aprendizagem, a gerir melhor o seu tempo, mais atentos à realidade onde vivem e também mais atentos aos outros”.

A rádio, sublinha, “obriga a sair”: sair da rotina, da estrutura rígida da escola, do papel passivo de aluno, levando-o a “questionar, preparar entrevistas, perguntar, criar histórias para depois as poder contar aos ouvintes.”

Motivação, envolvimento e aprendizagem pela ação

Também no contacto diário com escolas, a Rádio Miúdos tem identificado este efeito mobilizador. “Somos uma rádio independente, um órgão de comunicação social, inscrito na Entidade Reguladora para a Comunicação Social”, começa por explicar Verónica Milagres, co-fundadora do projeto. Embora não seja, em si, uma rádio escolar, a Rádio Miúdos trabalha com escolas há vários anos, ajudando a criar e a dinamizar rádios escolares.

“A grande diferença é que a rádio é feita por miúdos. Os adultos estão ali para facilitar o trabalho deles, não para fazer o trabalho por eles”, reforça a responsável. Para a responsável, uma das grandes forças da rádio está na aprendizagem pela ação: “pôr as mãos na massa e fazer uma coisa diferente, de forma divertida, mas com um grande impacto”.

O impacto aprofunda-se também porque os alunos sabem que vão ser ouvidos. Tal como adianta a cofundadora, “o que eles fazem vai ficar gravado, vai ficar em formato podcast. Eles estão a fazer rádio, mas sabem que fica registado e isso muda completamente a forma como se envolvem”. O formato, sublinha, é particularmente apelativo para esta geração e ajuda a criar uma relação diferente com a aprendizagem.

Esse envolvimento revela-se especialmente importante junto de alunos em risco de desmotivação ou abandono escolar. “A rádio não substitui a escola, mas pode potenciar a aprendizagem. Muitos alunos não se identificam com o formato escolar tradicional, mas quando trabalham na rádio, a fazer programas, de forma prática, já se entusiasmam de outra forma”, destaca.

Ler, escrever, investigar

No quotidiano da escola, Maria José Barroso percebe os benefícios da rádio na escola de forma muito concreta.

O projeto da Rádio Escolar Splash, na EB Piscinas – Olivais, exige tempo e dedicação, mas o retorno é visível. “Não imaginam as horas que este projeto exige, mas é um trabalho que me dá muito prazer, porque depois eu vejo o efeito nos miúdos”, conta a responsável. “De repente, um aluno que não gostava nada de escrever está a escrever porque precisa para fazer um programa. E isso é muito significativo. Eu vejo resultados práticos, que não ficam só na rádio.”

Para a professora bibliotecária, o maior efeito sente-se “na leitura e na escrita, mas também na pesquisa”. Ao preparar um programa, os alunos precisam de investigar, selecionar informação e compreender o que é relevante. Tudo isto acontece num contexto menos formal, o que muda muito o envolvimento com a aprendizagem.

Um dos aspetos mais valorizados por Maria José Barroso é o facto de a rádio criar um espaço seguro para alunos mais tímidos. “A grande vantagem da rádio é que quando lá estão ninguém está a ver. Não há vergonha”, reforça. Esse detalhe aparentemente simples tem consequências profundas. “Para esses alunos mais tímidos, a rádio acaba por ser um escape, o que tem impacto na autoestima e na forma como depois participam na escola”.

Outro eixo central que a professora destaca é o trabalho em equipa. “Eles sabem que têm de fazer a sua parte, porque o resto da equipa depende disso”, explica. E acrescenta: “há responsabilidade, cumprimento de horários, entreajuda”. Mais do que cumprir tarefas, os alunos aprendem a trabalhar com os outros, “a respeitar opiniões diferentes, a ouvir, a esperar pela sua vez”.

Espírito crítico e inclusão

A rádio é também um espaço privilegiado para trabalhar literacia mediática. Na Rádio Miúdos, isso é feito de forma muito sólida: “na rádio trabalha-se a desinformação, a privacidade e o fact-checking. Eles não podem dar notícias só porque viram no Instagram ou num site qualquer”, sublinha Verónica Milagres, e acrescenta: “nem porque foram ao ChatGPT perguntar. Têm de verificar.” Trata-se de uma aprendizagem essencial num contexto em que a informação circula rapidamente.

Também Sara Pereira identifica este desenvolvimento do espírito crítico. “A procura por histórias, por músicas, por aquilo que vai fazer a programação da rádio leva a desenvolver um espírito mais crítico”, explica.

Na escola de Maria José Barroso, a rádio tem sido integrada num projeto dedicado à democracia. Os efeitos são notórios. “Aprendem a respeitar a opinião dos outros, a esperar pela sua vez para falar”, descreve. “Esse processo desenvolve autonomia e capacidade de argumentação. São competências difíceis de trabalhar na sala de aula, pressionada por programas extensos e tempos rígidos.

Outro ponto comum entre as três perspetivas é o caráter inclusivo da rádio escolar. Para alunos com dificuldades de aprendizagem, a rádio oferece um espaço onde as competências são valorizadas. “Aqui eles não encontram entraves à aprendizagem”, observa Sara Pereira, e acrescenta que “há sempre competências que são reconhecidas.” Maria José Barroso tem a mesma experiência: “mesmo alunos que não brilham na aprendizagem mais tradicional encontram aqui um espaço onde se sentem competentes”.

Projetos frágeis, dependentes de pessoas

Apesar de todos estes benefícios, a rádio escolar continua, na maioria dos casos, dependente de iniciativas isoladas. A investigação mostra que muitos projetos são extracurriculares e voluntários. “Significa que apenas alguns alunos estão implicados […], muitas vezes por questões de tempo ou disponibilidade familiar”, explica Sara Pereira.

Na prática, isso traduz-se numa forte dependência de pessoas-chave. Verónica Milagres encontrou esse padrão em muitas escolas: “a grande maioria das rádios escolares estava dependente de um professor apenas”. Se esse professor sai, “a grande probabilidade é que a rádio termine”.

Maria José Barroso confirma esta perceção: “no dia em que eu deixasse o clube da rádio, a rádio morria”. Consciente dessa fragilidade, tenta criar mecanismos de continuidade entre alunos, nos quais os mais velhos ensinam os mais novos. “Eu sou o adulto que está na sala, mas quem faz praticamente tudo são eles. Assim, este conhecimento não se perde nem fica só dependente de mim”, relata.

O que é preciso para passar de exceção a regra

As três internvenientes apontam caminhos semelhantes para que a rádio escolar possa a ser uma prática mais consistente”. O primeiro, passa pela integração da rádio na prática pedagógica regular.

“Se estivesse incorporada na prática pedagógica quotidiana, mais alunos teriam oportunidade de desenvolver estas competências”, defende Sara Pereira. Para isso, é essencial repensar tempos e espaços. “Seria necessário que os professores tivessem mais tempo e que este trabalho fosse reconhecido”, sublinha. Sem esse reconhecimento formal, a rádio continuará a depender do voluntarismo.

É também essencial sensibilizar as famílias. “Às vezes parece que isto não é bem escola, é apenas uma atividade lateral”, observa a investigadora. Mostrar o que os alunos aprendem e dar visibilidade ao seu trabalho pode mudar essa perceção.

Por fim, apontam a carência de um reconhecimento institucional mais amplo. “A direção da escola e o Ministério da Educação têm de perceber o potencial da rádio”, defende Verónica Milagres. E acrescenta: “quando falamos de recursos, falamos sobretudo de recursos humanos. O problema raramente é o microfone ou o material que possa faltar. É o tempo e são as pessoas.”

A rádio escolar não é um simples entretenimento para intervalos. É um espaço onde se aprende a comunicar, a investigar, a respeitar o outro e a participar. Um espaço onde muitos alunos encontram, pela primeira vez, uma voz.

Como conclui Sara Pereira, “numa altura em que se fala tanto da mudança da educação e do espaço educativo, a rádio escolar, quando integrada de forma consistente, pode ser um desses lugares de mudança, não como exceção, mas como prática estruturante”. Um laboratório de cidadania que, mais do que ensinar a fazer rádio, ensina a estar no mundo.

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