Análise

Entre recursos e resultados: o que é preciso para ter uma boa escola?

por EDULOG


21 de outubro de 2016 |

Qual a organização e os recursos na Europa e como se relacionam com os resultados obtidos pelos alunos no PISA? A questão norteou uma análise do Conselho Nacional de Educação (CNE) e do projeto aQeduto, da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Turmas mais pequenas não garantem a qualidade das aprendizagens. Em 2012, cerca de 50% dos diretores das escolas com pontuações baixas no PISA [Programa Internacional de Avaliação de Alunos] afirmaram ter falta de instalações, material pedagógico e salas. As escolas que conseguem resultados acima do esperado, têm um corpo docente motivado e que se sente valorizado. A oferta de atividades extracurriculares é também prática comum nestas escolas.

As conclusões constam do relatório “O que faz uma boa escola?” e mostram também que apesar de estarem envolvidas num contexto socioeconómico desfavorável, 34% das escolas alcançaram resultados acima da média da OCDE. A análise realizada pelo CNE, em parceria com o projeto aQeduto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, teve por objetivo perceber como a organização e os recursos existentes nas escolas europeias se relacionam com as classificações conseguidas nos testes do último PISA.

“Qual a organização e os recursos na Europa?” A dimensão média das turmas nos países europeus variava entre 18 e 27 alunos, em 2012. Mas entre 2003 e 2012 alguns países mantiveram o número de alunos, outros registaram ligeiras subidas. França era o país com mais alunos na sala de aula, cerca de 27, e o único com turmas superiores a 25. No extremo, a Finlândia com turmas de apenas 18 alunos. Seja qual for o tamanho das turmas, a nível agregado, a análise do CNE e do aQeduto conclui que “não se verifica qualquer relação entre o número médio de alunos por turma e os resultados PISA”.

Exemplos? Com turmas médias de cerca de 25 alunos, a Holanda alcança uma classificação no PISA de 523, enquanto o Luxemburgo com turmas de 21 alunos teve uma pontuação de 490. Portugal manteve uma média de 22 alunos por turma, um número inferior ao máximo fixado por lei no período entre 2003 e 2012. Beneficiam de redução do número de alunos, turmas com alunos com necessidades educativas especiais (NEE), facto que poderá estar ligado a esta média.

“Ainda assim, ao longo deste período (2003-2012) os scores PISA Matemática, em Portugal, aumentaram cerca de 20 pontos”, lê-se no relatório. Apenas em 2013 foi publicada legislação para aumentar a dimensão das turmas, passando esta a variar entre 26 e 30 alunos para os níveis de ensino estudados. No entanto, este aumento não é visível nos dados PISA 2003 e 2012.

Por outro lado, “em Portugal, o aumento do número de horas de matemática pode estar associado à melhoria do desempenho no período entre 2003 e 2012”, diz o CNE, lembrando que “foi o país que mais investiu no aumento do número de horas de ensino da matemática”. Em 2012, os alunos portugueses tinham quase cinco horas de matemática por semana, em 2003 tinham cerca de três. Nos restantes países europeus, a prática corrente foi de manter o número de horas desta disciplina em cerca de três horas por semana.

Os inquéritos realizados em 2012 aos diretores das escolas sobre quais as tecnologias disponíveis e a sua utilização, mostram uma variação considerável relativamente aos recursos nos diferentes sistemas de ensino. “Portugal está no grupo dos países com maior disponibilidade de recursos tecnológicos nas escolas, embora estes não estivessem ainda a ser utilizados da melhor forma”, refere o CNE.

Nas respostas dos diretores a Dinamarca destaca-se como o país cujas escolas estão mais equipadas com tecnologias e as utilizam o seu potencial máximo. Noutro caso, da Polónia, cujos resultados PISA melhoraram naquele período, os diretores reconheciam que não só havia pouco equipamento tecnológico nas escolas, como era pouco utilizado. “Curiosamente, três dos países que melhor utilizavam a tecnologia eram os que tinham menos horas semanais de matemática: Suécia, Holanda e Finlândia”, constatam os autores do relatório.

“O que falta nas escolas?” Em 2012, os diretores de cerca de 50% das escolas com resultados baixos queixavam-se de “falta de instalações, material pedagógico e salas”. Quase nenhum referiu ter falta de professores. A falta de computadores, Internet e software nas salas de aula parecem ser as carências que afetavam o maior número de escolas.

Entre as escolas com resultados mais fracos são frequentemente apontadas a falta de instalações, de aquecimento e materiais de apoio pedagógico, refere o relatório. Já as escolas com melhores resultados parecem ter melhores laboratórios e bibliotecas mais equipadas. Ainda assim, a falta de computadores na sala de aula e de software é também uma queixa nas escolas com resultados muito bons e inseridas em meios socioeconómicos favorecidos.

Olhando para as escolas que se classificam acima de 500, mas que servem populações de recursos abaixo da média, os diretores identificam algumas práticas que garantem o seu sucesso: professores motivados e valorizados pela direção, oferta de atividades extracurriculares, infraestruturas e recursos satisfatórios e autonomia na gestão do orçamento. Por outro lado, as escolas que pontuam abaixo de 500, e que servem uma população de recursos igualmente abaixo da média, tendem a chumbar mais alunos, a criar turmas de nível a matemática, a investir na formação de professores e a comunicar e divulgar os objetivos da escola. Da análise, o CNE e o projeto aQeduto concluem que “estas práticas, que não serão por si só prejudiciais, estão a ser menos conseguidas no contexto em que se inserem, o que abre espaço para a discussão sobre a sua qualidade e formas de implementação”.

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