Análise

Diplomados: o que está por detrás dos números da entrada no mercado de trabalho?

por EDULOG


16 de setembro de 2026 |

Na rubrica “Por detrás dos números”, convidámos Ricardo Biscaia, coordenador do estudo “Resultados no mercado de trabalho dos diplomados do ensino superior português”, do EDULOG, a explicar o que revelam — e o que não revelam — os dados sobre a entrada dos diplomados no mercado de trabalho. A partir de cerca de 18 mil respostas ao Eurograduate 2022, a investigação analisa diferentes dimensões da qualidade do emprego, das diferenças entre áreas de formação à estabilidade contratual, passando pelos salários, pelo retorno de um mestrado e pelas desigualdades entre mulheres e homens. Leia a entrevista na íntegra.

Porque variam tanto os resultados profissionais entre áreas de formação? E até que ponto encontrar emprego significa alcançar uma boa integração no mercado de trabalho?

Na rubrica Por detrás dos números, Ricardo Biscaia, coordenador do estudo Resultados no mercado de trabalho dos diplomados do ensino superior português desenvolvido pelo CIPES — Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior – explica como foi realizada esta investigação e ajuda-nos a interpretar os dados. Das diferenças entre áreas de formação às desigualdades salariais entre mulheres e homens, passando pela estabilidade contratual e pelo retorno de um mestrado, o investigador esclarece o que os resultados mostram, as possíveis explicações e os limites da análise.

Dois grupos inquiridos um e cinco anos após o curso

Os dados provêm do Eurograduate 2022, um inquérito realizado junto dos diplomados do ensino superior. O estudo compara dois grupos: os diplomados de 2020/21, inquiridos cerca de um ano após a conclusão do curso, e os de 2016/17, inquiridos cinco anos depois.

Em Portugal, o inquérito recolheu informação de cerca de 18 mil diplomados. «Tivemos respostas de 12% a 13% da população nestas condições. Era uma amostra bastante representativa, cerca de um oitavo dessa população», explica Ricardo Biscaia.

Nas comparações, a equipa considerou características como a idade, a média final, a área de formação, o grau académico e o tipo de instituição frequentada. Já a qualidade do emprego foi avaliada através do salário por hora, da estabilidade contratual, da satisfação, da sobrequalificação e da correspondência entre o trabalho e a área de formação.

Desemprego de 12% ao fim de um ano e de 5% ao fim de cinco

Entre os diplomados inquiridos um ano após o curso, a taxa de desemprego ronda os 12%; no grupo que concluiu a formação cinco anos antes, fica perto dos 5%.

«A nossa melhor explicação para a diferença entre as taxas de desemprego são as fricções iniciais no mercado de trabalho», afirma Ricardo Biscaia. Alguns diplomados demoram a encontrar uma oportunidade ou prolongam a procura enquanto esperam por um emprego próximo da sua área de formação.

Segundo o investigador, com o passar do tempo, algumas pessoas poderão tornar-se mais disponíveis para aceitar outras funções. «Passam a estar empregadas, o que reduz a taxa de desemprego, mas não necessariamente em empregos com maior alinhamento com a formação», explica. Assim, deixar de estar desempregado não significa obrigatoriamente encontrar um trabalho correspondente ao curso.

Ricardo Biscaia sublinha, porém, que esta interpretação não foi demonstrada pela análise: «Esta é a explicação que nos parece mais razoável para a descida da taxa de desemprego, embora seja uma hipótese que não testámos.»

A área de formação marca diferenças de 15 pontos percentuais

Um ano após o curso, a probabilidade de desemprego entre os diplomados de Artes é cerca de 15 pontos percentuais superior à registada em Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção. A área de formação é, aliás, o fator que mais diferencia os resultados dos diplomados. Mas isso significa que os cursos associados a maior desemprego ou a empregos menos favoráveis têm menor qualidade?

Ricardo Biscaia afasta essa conclusão: «Não quer dizer que o ensino superior esteja mal, que se ensine mal nestas áreas ou que os estudantes sejam maus. O que há é uma falta de capacidade de absorção na economia.»

Para Ricardo Biscaia, estes resultados devem ser divulgados junto dos estudantes e das famílias, permitindo-lhes ponderar a vocação, as oportunidades profissionais e o investimento exigido por uma formação superior.

O acesso à informação pode também reduzir desigualdades: «As famílias mais favorecidas estão normalmente mais bem informadas sobre este tipo de coisas. Tomam melhores decisões porque têm melhor informação. A divulgação ajuda, portanto, a mitigar as diferenças entre famílias favorecidas e desfavorecidas.»

Contratos sem termo passam de seis para oito em cada dez

Entre os diplomados que trabalham por conta de outrem, cerca de 6 em cada 10 dos que foram inquiridos um ano após o curso tinham um contrato sem termo. Entre os diplomados observados cinco anos depois, eram já 8 em cada 10.

«É normal: os diplomados adquirem mais experiência, estão mais integrados nas suas carreiras e podem ser promovidos internamente», explica Ricardo Biscaia.

O investigador alerta, porém, que um vínculo permanente não significa necessariamente uma melhoria global da situação profissional: «O contrato até pode ficar permanente por obrigação legal, e não necessariamente por uma melhoria das restantes condições de trabalho.»

Por isso, é necessário cruzar a estabilidade contratual com os outros indicadores. Entre os diplomados inquiridos cinco anos após o curso, os salários são mais elevados e existe maior correspondência entre o emprego, as competências e as qualificações. A satisfação profissional, contudo, mantém-se relativamente semelhante.

Mestrado associado a um salário 7% superior e a um maior risco de sobrequalificação

Um mestrado realizado depois da licenciatura está associado a um salário bruto por hora cerca de 7% superior, mas também a uma maior probabilidade de desempenhar funções abaixo do nível de qualificações alcançado.

É possível concluir que o investimento compensa? «Não consigo responder a isso», ressalva Ricardo Biscaia. Para chegar a uma resposta mais completa, seria necessário distinguir diferentes perfis académicos: «Precisávamos de olhar para os estudantes de topo, os estudantes do meio da tabela e os estudantes com resultados mais baixos. Estes inquéritos ao mercado de trabalho são sempre muito complicados, porque os percursos são múltiplos.»

A comparação considera diplomados semelhantes quanto à área de formação, à idade e à média final. Mas há outros custos a ponderar. «O mestrado demora dois anos, tem custos», lembra o investigador. Além das propinas, pode implicar prescindir de rendimentos durante esse período ou conciliar o trabalho com os estudos.

Diferenças salariais de 12% e 16% entre mulheres e homens

Entre os diplomados inquiridos um ano após o curso, as mulheres recebem salários brutos por hora cerca de 12% inferiores aos dos homens. No grupo observado cinco anos depois, a diferença chega aos 16%.

A diferença mantém-se quando são comparados diplomados com características semelhantes, como a área de formação, a média, o grau académico e a idade. «É um puzzle», reconhece Ricardo Biscaia. O investigador destaca sobretudo a dimensão da diferença e o facto de esta ser maior entre os diplomados que terminaram o curso há mais tempo: «Se reparar nas restantes variáveis, em geral acontece o contrário: o impacto é maior ao início e depois a diferença diminui».

Uma possível explicação está na função desempenhada, variável que o estudo não consegue controlar. Não é possível saber se os homens foram promovidos com maior frequência e se essa progressão ajuda a explicar parte do fosso salarial.

Ricardo Biscaia aponta também para o possível efeito da parentalidade: «Há esta primeira parte legal, com as diferenças nas licenças e a questão da amamentação nos primeiros anos.» A desigual distribuição dos cuidados familiares pode igualmente condicionar a presença no trabalho e as oportunidades de progressão. «Perante uma emergência familiar, se calhar a nossa sociedade está a pôr a mulher a responder primeiro», exemplifica.

Estas são hipóteses, não causas demonstradas pelo estudo. «Não conseguimos saber se as diferenças vêm destes motivos, embora nos pareça o mais provável. Também não sabemos se há discriminação por parte dos empregadores não associada a este tipo de fenómenos», ressalva.

Como se relacionam as cinco dimensões da qualidade do emprego

É possível receber um salário elevado e, ainda assim, trabalhar abaixo das qualificações ou fora da área de formação? Embora estas dimensões possam não coincidir em todos os casos, Ricardo Biscaia afirma que existe uma relação forte entre elas: «Não diria que estão assim tão desalinhadas.»

Noutras análises da base de dados do Eurograduate 2022, a insatisfação, a sobrequalificação e o desajustamento entre as competências e as funções surgem também associados a perdas salariais. «Normalmente, quem tem uma desvantagem tem as outras todas», explica.

O inverso também tende a verificar-se: «Quando a pessoa melhora numa dimensão, tendencialmente está melhor nas outras quatro.» Segundo o investigador, esta relação já era conhecida na literatura, mas ainda não tinha sido documentada desta forma para Portugal.

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