Análise
por EDULOG
4 de novembro de 2026 |
Ao instituir o Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, incluindo o Cyberbullying, a UNESCO reconheceu que estas formas de violência violam os direitos das crianças e dos jovens à educação, à saúde e ao bem-estar. A data, assinalada na primeira quinta-feira de novembro, é um apelo à mobilização conjunta para garantir ambientes de aprendizagem seguros.
Foi a propósito deste dia que conversámos com Luís Fernandes, psicólogo, investigador e coordenador do projeto Bullying.pt. Com mais de duas décadas de trabalho nesta área, o profissional defende que a prevenção deve fazer parte do quotidiano de toda a comunidade escolar.
Fala-se cada vez mais de bullying. Mas como reconhecer estes comportamentos e distingui-los dos conflitos que fazem parte das relações entre alunos?
O termo banalizou-se tanto que, por vezes, o bullying é desvalorizado. Mas ele existe e é preciso saber identificá-lo. Refere-se a comportamentos agressivos entre pares, repetidos e intencionais, em que existe um desequilíbrio de poder. Alguém consegue impor-se pela força física ou psicológica, individualmente ou em grupo.
Não existe um número exato de episódios a partir do qual podemos dizer que é bullying. Mas há repetição e intenção de magoar: sabemos que um colega não gosta que lhe chamem determinado nome e continuamos; percebemos que um comportamento causa mal-estar, mas insistimos na ameaça ou na humilhação.
Às vezes, é mais fácil explicar a diferença em relação a uma brincadeira: numa brincadeira, todos se divertem e estão mais ou menos ao mesmo nível. Quando alguém é sempre o alvo e não se está a divertir, já não podemos desvalorizar e dizer que é uma simples brincadeira.
Como pode o bullying afetar o bem-estar e a aprendizagem? Que sinais devem merecer atenção?
Pode provocar mudanças muito bruscas que vão além da escola: perturbações do sono e da alimentação, uma descida abrupta das notas, nervosismo, oscilações de humor ou recusa em ir à escola. Uma criança que já fazia o caminho sozinha pode voltar a pedir que alguém a leve ou a vá buscar.
Há até alunos que me dizem: «Estou na aula, mas nem estou a ouvir o professor. Só penso que faltam dez minutos para o intervalo e em como me vou esconder.» Não conseguem prestar atenção, depois têm dificuldade em estudar e o rendimento escolar baixa. São jovens que não estão a mostrar todo o seu potencial.
Isto acontece numa fase em que estão a construir a personalidade. Se, sempre que um jovem fala, alguém lhe diz que é estúpido ou que não diz nada de jeito, pode começar a interiorizar essa ideia. Sobretudo se quem agride conseguir mobilizar os restantes colegas para o isolar.
Nos recreios, corredores e refeitórios, os assistentes operacionais acompanham os alunos de perto. Que papel podem ter?
Há estudos que apontam para que cerca de 70% das situações de bullying ocorram no recreio. Os assistentes operacionais são, por isso, fundamentais. Uma parte importante do trabalho que fazemos no projeto Bullying.pt é capacitá-los para observar, identificar situações e intervir.
Disponibilizamos, por exemplo, grelhas de observação do recreio adaptadas aos diferentes ciclos de ensino e ferramentas para a interação com os alunos. É importante detetar precocemente focos de conflito ou comportamentos potencialmente agressivos, mesmo que ainda não configurem bullying. Um adulto que está no recreio e olha para o lado perante uma situação destas não está a ter uma atitude neutra: mesmo sem dizer nada, pode estar a dar força a quem agride.
Eu próprio procuro estar no recreio durante os intervalos, sobretudo nos mais longos. É ali que conseguimos observar as relações entre os alunos e intervir.
Quando chega uma suspeita ou denúncia à escola, quais devem ser os primeiros passos?
As famílias devem começar por falar com a escola: com o professor titular, no primeiro ciclo, ou com o diretor de turma. Aconselho que formalizem a situação por escrito. Uma conversa pode perder-se ou diluir-se no tempo; um registo escrito permite identificar quando a situação foi comunicada.
A escola deve averiguar o que se passa e ouvir as famílias dos alunos envolvidos. Recomendo que essas conversas sejam feitas separadamente, porque podem surgir momentos de muita tensão. Há pais que não imaginam que os filhos estão a sofrer bullying e outros que têm muita dificuldade em reconhecer que os filhos agridem colegas.
É também importante haver acompanhamento psicológico, tanto de quem sofre como de quem agride. Num caso, para ajudar a atenuar o impacto daquilo que aconteceu; no outro, para trabalhar a mudança de comportamento. Ser vítima ou agressor não tem de ser um rótulo para a vida. Com intervenção adequada e redes de apoio, é possível quebrar esse ciclo.
O que muda quando as agressões passam para as redes sociais ou para os grupos de mensagens?
Com exceção da agressão física, os outros comportamentos podem ser transpostos para os dispositivos digitais. E os desafios tornam-se maiores, até porque as plataformas mudam muito depressa e os adultos têm dificuldade em acompanhar o que acontece.
No bullying presencial, o aluno pode saber quem o ameaça e em que contexto: um colega diz-lhe que lhe vai bater quando chegar à escola. Online, pode receber uma mensagem como «quando menos esperares, vais ver o que te acontece» e não saber de quem vem. Pode ser alguém da turma, da escola ou de outro contexto. Não sabe se a ameaça se concretiza na escola, no autocarro ou no caminho para casa.
Essa incerteza cria um estado de alerta permanente, muito desgastante. A perseguição deixa de estar limitada a um lugar ou a um horário. Por isso, em vez de bullying na escola, prefiro falar em bullying em idade escolar: ele também acontece nos clubes desportivos, no caminho para casa e, através dos meios digitais, em qualquer momento.
Para além das campanhas pontuais, como pode a escola prevenir o bullying ao longo do ano e envolver os próprios alunos?
É uma missão diária, que nunca está terminada. A prevenção e o combate ao bullying não são atividades sazonais. As datas ajudam a dar visibilidade, mas tem de existir um projeto partilhado por alunos, professores, técnicos, assistentes operacionais, direção e famílias, durante todo o ano letivo.
Na escola onde trabalho, na Vidigueira, criámos o projeto MARVEL: Miúdos Atentos, Resilientes, Voluntariosos, Empáticos e Líderes. São alunos identificados por professores, assistentes operacionais e colegas, com quem trabalhamos para que estejam atentos a situações de injustiça, agressão ou humilhação e intervenham ou avisem um adulto.
Também ajudam a acolher alunos de outras nacionalidades, que muitas vezes ainda não dominam o português. A intenção é criar uma ligação com os colegas desde o início, para que a dificuldade em comunicar não os deixe à margem da vida da escola. Estes alunos funcionam como uma espécie de mentores: fazem-lhes companhia no almoço e no recreio e ajudam-nos a estabelecer relações. É uma forma de prevenir o isolamento e promover a inclusão, com benefícios para ambos: quem chega encontra apoio e quem acolhe desenvolve a empatia e outras competências sociais e emocionais.
Como trabalha o projeto Bullying.pt com as escolas?
As escolas contactam-nos, mas trabalhamos também com autarquias e comissões de proteção de crianças e jovens. A intervenção depende das necessidades: pode ser uma comunicação, uma formação para assistentes operacionais ou técnicos, sessões para alunos e famílias ou formação para profissionais do Programa Escola Segura.
Muitas vezes, aproveitamos a deslocação para trabalhar com vários públicos: fazemos sessões durante o dia e, ao final da tarde, uma sessão aberta à comunidade.
No site disponibilizamos recursos que podem ser utilizados ao longo do ano. Temos, por exemplo, fantoches de dedo para trabalhar com crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo e materiais específicos para outras idades.
A minha preocupação sempre foi partilhar materiais e ideias. E é por isso que, quando dou formação, deixo as apresentações e os recursos. As pessoas nem sempre têm tempo para criar tudo de raiz; é importante terem ferramentas que possam adaptar à sua escola.
O que falta para melhorar a prevenção e a resposta ao bullying em Portugal?
Precisamos de um fio condutor. Há zonas onde se trabalha muito bem, porque existem pessoas sensibilizadas e com formação, e outras onde quase não se trabalha este tema. E não podemos ter o país a duas ou três velocidades.
Defendo uma orientação comum, articulada com programas municipais de prevenção e combate ao bullying. É importante conhecer a realidade de cada concelho e agrupamento: o que faz sentido numa escola pode precisar de adaptação noutra. Também precisamos de articular os vários projetos que já existem nesta área e aproveitar a complementaridade entre equipas.
Que diferença podem fazer as ações de prevenção do bullying na vida dos alunos?
Há estudos que indicam que um em cada três jovens em idade escolar está envolvido em bullying, como vítima, agressor ou ambos. Perante esta dimensão, temos de acreditar que vale a pena intervir. Às vezes, até dentro da escola, ouvimos que não vale a pena ter aquele trabalho todo, que os alunos não ligam às atividades nem às mensagens que procuramos transmitir. Se nos deixarmos levar por essas vozes, acabamos por não fazer nada. E a verdade é que eles ligam. Ainda recentemente encontrei antigos alunos que vieram falar comigo e se lembravam das iniciativas que tínhamos feito. Podemos não perceber logo o impacto, mas alguma coisa fica. E é essa convicção de que podemos fazer a diferença que nos dá força para continuar.
Podemos não conseguir tirar o bullying do mundo, mas conseguimos, se calhar, tirar o bullying do mundo de alguém. E isso faz a diferença.