Análise

Como se analisam as desigualdades no acesso ao ensino superior?

por EDULOG


26 de fevereiro de 2026 |

No quadro “Por detrás dos números”, convidámos Pedro Luís Silva, coordenador do estudo “Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior”, do EDULOG, a explicar o que revelam — e o que não revelam — os dados. A partir de uma base de cerca de 724 mil diplomados do ensino secundário, a investigação analisa de que forma o território, a distância e as condições socioeconómicas continuam a moldar o acesso ao ensino superior, distinguindo entre mobilidade por escolha e mobilidade por constrangimento. Leia a entrevista na íntegra.

Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior é um estudo do EDULOG focado em fatores que condicionam o acesso ao ensino superior. Para além das grandes conclusões, o que está “por detrás dos números”? Que perguntas orientaram a investigação? Que decisões metodológicas foram feitas? Qual a relevância das evidências para o setor da educação? E que desafios continuam a existir?

Para explorar mais este tema, Pedro Luís Silva, coordenador do estudo, explica, com mais detalhe, como foi o processo de elaboração do estudo e qual a sua relevância.

A análise surge de uma pergunta central: até que ponto o local de origem de um aluno condiciona o seu acesso ao ensino superior? A partir daqui, o processo foi estruturado em duas dimensões, como explica Pedro Luís Silva: “o foco foi na questão socioeconómica e na questão regional, isto é, na distribuição dos alunos ao longo do território”.

O estudo incidiu sobre a população de alunos que entrou no ensino superior (público e privado), procurando perceber se a distribuição territorial das vagas se traduz, na prática, em igualdade de oportunidades. Até porque, refere o coordenador, apesar de a distribuição de alunos estar “mais ou menos alinhada com a distribuição de vagas”, tal não significa que o acesso seja equitativo.

Mais do que medir mobilidade, o objetivo era perceber se essa mobilidade resulta de escolha ou de constrangimento e se o território continua a pesar no momento decisivo de entrada no ensino superior.

Como foi feito o estudo


A análise baseia-se em dados administrativos de cerca de 724 mil diplomados do ensino secundário, residentes em todos os municípios de Portugal Continental. A partir desta base alargada, o estudo acompanha o momento de entrada no ensino superior e estima os fluxos entre o concelho de origem e a instituição de destino.

Para isso, foi utilizado um modelo gravitacional: uma abordagem que permite analisar os movimentos entre territórios, controlando as características das regiões de origem e de destino. A equipa integrou variáveis provenientes de outras bases de dados, como o rendimento médio bruto, o salário médio dos diplomados e o rácio da população, aplicadas tanto ao município de origem como ao de destino.

Os desafios


“Estamos a falar de 10 anos de microdados: olhamos para a população de diplomados do ensino secundário e observamos quando é que eles vão para o ensino superior”, contextualiza Pedro Luís Silva.

Por abranger milhares de diplomados ao longo de uma década, a dimensão da base de dados exigiu uma elevada capacidade de computação e tratamento estatístico. E, para além do desafio computacional, houve um cuidado metodológico central.

Como explica o responsável, tornou-se necessário “retirar fontes de outras bases de dados, tanto para o município de origem quanto para o município de destino, para tentar controlar as características desses municípios”. Isto para garantir que “o efeito da distância não estivesse contaminado por essas características”. Ou seja, assegurar que, quando o estudo identifica a distância como fator dissuasor, está efetivamente a medir o impacto da distância e não a reproduzir desigualdades socioeconómicas já existentes entre territórios.

O que os números mostram


A análise confirma que a distância pesa no momento do acesso ao ensino superior. Como sintetiza Pedro Luís Silva, “a distância é um fator dissuasor. Nem todos os alunos, mediante o concelho de origem, têm as mesmas oportunidades, por questões sobretudo socioeconómicas e face às distâncias que têm de percorrer para frequentar o ensino superior.”

O problema não reside necessariamente na inexistência de oferta, mas na forma como o território e a condição económica dos estudantes interagem com essa oferta.

A evidência mostra que o efeito da distância varia consoante o percurso escolar. Entre os diplomados de cursos científico-humanísticos, o afastamento geográfico traduz-se numa redução mais acentuada dos fluxos. Em contraste, os diplomados de cursos profissionais optam com maior frequência por percursos de menor alcance e concentram-se em instituições politécnicas ou em alternativas próximas do seu local de residência.

Também a estrutura da oferta local influencia as decisões. A existência de uma instituição de ensino superior no município favorece a permanência; quando essa oferta não existe, a continuidade dos estudos depende mais diretamente dos recursos do agregado familiar.

A mobilidade pode representar uma escolha, mas também pode resultar de limitações. Quando a deslocação implica custos acrescidos (transporte, alojamento ou alimentação), esses encargos recaem com maior intensidade sobre estudantes em situação económica mais vulnerável.

O que nos revela o caso da Medicina


A Medicina surge como um caso extremo da análise. “Apenas 2% de diplomados em Portugal seguem um curso de Medicina”, pelo que este curso não representa o funcionamento típico do sistema. Aqui, a distância “é um fator dissuasor, mas não tem uma magnitude tão elevada como para os outros cursos”, reforça Pedro Luís Silva, já que “os alunos até estão dispostos a percorrer maiores distâncias para frequentar o curso de Medicina”.

O fator decisivo é outro: “a condição socioeconómica é o fator dominante no acesso a este curso”. Mesmo tratando-se de um curso altamente seletivo, “a questão socioeconómica continua a ser central, é um curso elitista”. Os dados mostram maior probabilidade de acesso entre alunos do ensino secundário privado, sobretudo do Norte, um padrão que o próprio investigador admite ter sido, talvez, aquele que mais o surpreendeu.

O que este estudo não consegue medir


O estudo EDULOG olha para a porta de entrada do ensino superior. Contudo, não mostra o que acontece depois. “Os dados apenas são do acesso; uma coisa é o acesso, outra coisa é o sucesso e outra coisa depois é o retorno.”, esclarece Pedro Luís Silva.

Isto significa que não é possível saber quantos estudantes concluem efetivamente o curso, em quanto tempo, com que resultados ou que percurso profissional seguem após a graduação.

A ausência de dados integrados entre educação e emprego impede o acompanhamento das trajetórias dos diplomados e dificulta perceber até que ponto o sistema transforma o acesso em conclusão e a conclusão em inserção profissional. Algo essencial para uma visão mais completa e profunda sobre o ensino superior.

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