Análise

OCDE diz que a escola deve ensinar emoções

por EDULOG


28 de março de 2016 |

Investir na capacitação emocional das crianças e dos jovens traz benefícios para o aproveitamento, a saúde dos alunos e o ambiente escolar.

“É necessário desenvolver as crianças como um todo. Com um conjunto equilibrado de competências cognitivas, sociais e emocionais para que possam enfrentar melhor os desafios do século XXI.” Decisores políticos e ministros da Educação dos países da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) concordaram, por unanimidade, sobre a importância de acrescentar as competências emocionais e sociais às aprendizagens escolares. A tomada de posição surgiu durante o congresso “Competências para o Progresso Social”, realizado a 23 de março de 2015 em São Paulo, no Brasil.

“Os alunos que alcançam níveis elevados de competências sociais e emocionais, como a autoconfiança e a perseverança, são mais suscetíveis de beneficiar do investimento em competências cognitivas, como por exemplo, aulas de matemática ou ciências”, lê-se no relatório “Skills for Social Progress: The Power of Social and Emotional Skills”, saído do encontro promovido pela OCDE em São Paulo e publicado um ano depois. O documento tem por base uma análise longitudinal realizada em nove países membros (Bélgica, Canadá, Coreia, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos da América). E aponta os resultados do investimento destes países na capacitação emocional e social de crianças e jovens.

Tomando o exemplo da Bélgica, ficou provado que os alunos do 6.º ano com traços mais extrovertidos e boa autoestima têm 13% mais de probabilidades de frequentar o ensino superior. Investindo em medidas para promover o autodomínio o Canadá chegou à conclusão de que também conseguia aumentar a probabilidade de os alunos com 15 anos prosseguirem estudos superiores. Vários estudos realçam a ligação entre competências emocionais e melhoria do ambiente vivido na escola. Por exemplo, na Coreia, o aumento do sentimento de responsabilidade entre os adolescentes com 14 anos mostrou eficácia na redução de comportamentos de violência entre os jovens. Na Nova Zelândia, o reforço da perseverança em crianças de 8 anos melhorou o seu aproveitamento escolar.

A capacitação dos jovens para lidar com as suas emoções provou também resultados ao nível da saúde. Na Noruega, o aumento dos níveis de confiança nos alunos entre os 15 e os 19 anos diminuiu o risco de alcoolismo. A promoção da autoestima em crianças de 10 anos, no Reino Unido, mostrou resultados positivos na diminuição dos casos de depressão sinalizados aos 16 anos. Já na Suíça, o investimento na mesma competência, diminuiu em 26% o risco de depressão em adolescentes de 16 anos.

Um estudo longitudinal realizado nos Estados Unidos da América mostrou o quanto a intervenção precoce na infância pode contribuir para reduzir a infelicidade das crianças em níveis escolares mais avançados.

Sob a certeza de que as competências sociais e emocionais são vitais para o futuro dos jovens, a OCDE aconselha os sistemas educativos a ensinar sentimentos, além de saberes. Alunos sociáveis com professores e colegas, conscientes do que sabem ou não, determinados a atingir os seus objetivos e emocionalmente estáveis, têm mais probabilidades de obter bons resultados na escola. Mas também, de ser melhores profissionais no mercado de trabalho e cidadãos na sociedade.

É nesta tripla perspetiva que reside a importância de ensinar crianças e os jovens a gerir emoções, garante a OCDE reconhecendo, no entanto, que será difícil aos sistemas educativos avaliar se o esforço para desenvolver as competências psicológicas dos alunos está a dar frutos. A solução poderá estar na utilização de alguns instrumentos, reconhecidos cientificamente como confiáveis, acrescenta aquela organização. Tais como os autorretratos de personalidade ou de características comportamentais e as avaliações psicológicas objetivas.

“A perceção de que as competências sociais e emocionais são difíceis de melhorar, em particular, através da escolaridade formal”, pode vir a ser outro entrave ao desafio de ensinar as emoções, antecipa a OCDE, sugerindo, por isso, aos sistemas educativos o recurso alternativo às atividades extracurriculares e ao ensino informal.

O relatório realça também o papel de pais, mentores, professores e educadores no processo de aprendizagem emocional. Tratando-se de “competências relativamente mais maleáveis na infância e na adolescência”, podem ser nutridas desde cedo. Basta que os adultos mais significativos criem laços relacionais fortes com as crianças. O reverso da medalha é que “pequenas lacunas de competências, no início da vida, podem tornar-se falhas significativas no seu decurso”. E “a falta de competências emocionais pode agravar as desigualdades económicas e sociais”, alerta a OCDE.

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