Estudos

Quem são os docentes, os alunos e os diplomados do Ensino Superior?

por EDULOG


29 de março de 2016 |

A maioria dos alunos termina uma licenciatura de 1.º ciclo. Mas nos últimos 15 anos o ensino superior tem registado uma diminuição tanto de estudantes, como de docentes. Uma classe que está a ficar cada vez mais envelhecida. As conclusões constam do relatório “Ensino Superior em Portugal: retrato sociográfico”, publicado pelo Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESUP).

Há uma tendência global que espelha a evolução do ensino superior nos últimos quinze anos: um decréscimo do número de docentes, alunos e diplomados. Diminuição mais notória no ensino politécnico e no subsistema privado. No que diz respeito às diferenças de género, registou-se um aumento de diplomados e alunos do sexo feminino a partir das últimas décadas do século XX. Mas o seu peso relativo estabilizou desde 2001. Recorrendo à base de dados PORDATA (Base de Dados de Portugal Contemporâneo), Mariana Alves e Patrícia Lopes, do SNESUP, mostram a evolução registada no ensino superior nos últimos 15 anos ao nível do corpo docente, alunos e diplomados.

As autoras assumem que o objetivo do relatório é o de sistematizar indicadores estatísticos de modo a permitir interpretações. Por essa razão escrevem: “Considera-se importante destacar que as tendências evolutivas descritas, ainda que possam não ser surpreendentes, suscitam alguma preocupação.”

Nos anos mais recentes, a licenciatura de 1.º ciclo tornou-se no tipo de curso com maior número de alunos e diplomados, enquanto a frequência de mestrados diminuiu. O aumento de alunos e diplomados doutorados tem sido constante, mas o grupo continua a ter uma dimensão muito pequena no panorama do ensino superior português.

A maior parte dos alunos e diplomados continua a frequentar e a concluir os estudos no ensino universitário e no subsistema público. Por esse motivo a maior parte dos docentes do ensino superior trabalha nestes dois setores e é neles também que se encontram os profissionais com mais idade. Com a escolaridade obrigatória a terminar no 12º ano, “a base de recrutamento de alunos para o ensino superior encontra-se a partir do momento presente sig-nificativamente alargada”. As autoras acreditam, por isso, que “não é legítimo o argumento da diminuição do número de alunos do ensino básico e secundário para explicar o decréscimo quantitativo do ensino superior”.

O peso dos diplomados de ensino superior na população residente em Portugal revela a distância considerável para atingir os 40% de diplomados dos 30 aos 34 anos em 2020, a meta estabelecida pela União Europeia (EU). “Para que Portugal cumpra os objetivos estabelecidos para os países da União Europeia, é essencial aumentar o número de alunos no ensino superior”, dizem as autoras. Tanto entre os jovens que terminam o ensino secundário como entre os adultos, cuja participação no ensino superior tem vindo a diminuir de forma significa nos últimos anos.

Classe docente envelhecida

De modo geral, lê-se no relatório, “os docentes do ensino superior são um grupo profissional bastante envelhecido”. Fruto do grande número de aposentações e da não contratação de novos docentes, dizem as autoras do relatório que alertam ainda para o facto de a situação merecer “particular atenção”.

Desde 2010 o número de docentes tem vindo a diminuir, afetando tanto o subsistema público como o privado. Mas em particular o privado, onde o decréscimo é mais acentuado. Desde 2001, o sector público concentra a maioria dos docentes, com percentagens entre os 59% e quase 63%. São as universidades públicas e privadas, que reúnem a maioria dos docentes (entre 61% e 64%). Em termos de género, entre 2001 e 2014 os docentes do ensino superior são na grande maioria do sexo masculino. A presença de mulheres registou um ligeiro aumento de 40,8% em 2001 para 44% em 2014.

Várias razões tornam vital o crescimento do ensino superior e a valorização do seu contributo para as áreas do ensino e da investigação. Do mesmo modo, é preciso “equacionar com urgência estratégias para o rejuvenescimento do grupo profissional dos docentes e investigadores deste nível de ensino”, escrevem as autoras do relatório, salientando ainda que “o número de doutorados nos últimos anos assegura a existência de recursos humanos para a docência no ensino superior”.

Oscilações no número de alunos

Ao contrário da tendência de aumento progressivo verificada nas últimas décadas do século XX, o número total de alunos tem sofrido oscilações desde o ano 2000, sendo de notar um decréscimo desde 2012. Em 2005 o número de alunos no ensino superior era de 387 703, em 2011 subia para 396 268. Um aumento logo seguido de uma diminuição registada a partir de 2011. Em 2014, cerca de 362 200 alunos frequentavam o ensino superior.

As variações na distribuição dos alunos por nível de formação (bacharelato, licenciatura, licenciatura de 1.º ciclo e mestrado integrado e mestrado) refletem as alterações na oferta formativa e na estrutura curricular do ensino superior português. Em grande medida em virtude da adaptação ao Processo de Bolonha, responsável pelo surgimento, a partir de 2010, de alunos de 1º ciclo (que em 2011 são a maioria dos estudantes) e de mestrado integrado.

De notar ainda, o aumento acentuado de alunos em cursos de mestrado até 2012, data a partir da qual esse con¬tingente regista uma diminuição quantitativa. Nos doutoramentos, o aumento do número de alunos foi particularmente acentuado na primeira década do século XXI, registando-se um crescimento menos expressivo entre 2011 e 2014.

Os dados recolhidos confirmam a tendência para a feminização do público estudantil, tanto no universitário como no politécnico. Registam-se diferenças entre a frequência do ensino superior público e do privado: de 2001 a 2014 o número de alunos matriculados no privado diminuiu para cerca de metade.

Quanto às áreas de estudo escolhidas pelos alunos, durante os primeiros quinze anos do século XXI, predominam as “ciências sociais, comércio e direito” e a “engenharia, indústrias transformadoras e construção”. Entre 2001 e 2012, duplicam os alunos na área de “saúde e proteção social”. E regista-se uma redução acentuada (para menos de metade) dos alunos na área de “educação”. Nas restantes áreas de formação, o número de alunos manteve-se praticamente igual de 2001 a 2014.

Aumentam licenciaturas de 1.º ciclo

O indicador relativo ao número de diplomados reflete, tal como a evolução do número de alunos, as alterações na oferta formativa e estrutura curricular ocorridas no sistema educativo português. Entre 2010 e 2014, a maioria dos diplomados concluem licenciaturas de 1º ciclo.

No mesmo período, o grupo dos titulares de um mestrado integrado não regista alterações significativas. Apenas nos cursos de especialização é possível observar um decréscimo de diplomados. O número de doutorados tem aumentado progressivamente desde 2001, mas este permanece um grupo residual no conjunto dos diplomados do ensino superior.

A maioria dos diplomados que termina o ensino universitário são mulheres. Não surpreende as autoras do estudo que em termos da distribuição dos diplomados por áreas de educação, na primeira década do século XXI, se registasse uma redução daqueles que concluem cursos em “educação”. E um aumento dos diplomados em “engenharias, indústrias transformadoras e construção”.

Assim, as três áreas em que mais diplomados terminam cursos superiores são as das “ciências sociais, comércio e direito”, da “saúde e proteção social” e da “engenharia, indústrias transformadoras e construção”.

Por último, concluem as autoras, é ainda significativo o aumento do peso dos diplomados de ensino superior na população residente em Portugal: a percentagem sobre de 0,9% em 1960 e 1970 para 14,8% em 2011.Visível é também a tendência de feminização dos diplomados de ensino superior: de 0,4% em 1960 para 16,9% em 2011.

partilhar