Políticas

O que dizem geógrafos, economistas e políticos sobre o desenvolvimento económico das regiões do Sul da Europa?

por EDULOG


14 de junho de 2017 |

Além de uma “geografia comum”, Portugal, Espanha, Itália e Grécia têm baixos níveis de produto interno bruto (PIB), elevado desemprego e uma população envelhecida. A ligação entre qualificação e produtividade continua a falhar, apesar dos investimentos feitos em educação. Nos quatro países sente-se, agora, a frustração depois das grandes expectativas criadas em torno das políticas europeias.

“Sabemos que uma população com mais escolaridade gera maior produtividade, mas não sabemos bem como? Podemos dizer, com certeza, que o desenvolvimento regional é gerado pelo capital humano e que este depende da educação.” A ideia emerge de várias discussões e estudos realizados por geógrafos e economistas portugueses, espanhóis, italianos e gregos, alguns deles reunidos recentemente num livro, escrito em inglês, e coordenado por Madalena Fonseca, professora na Universidade do Porto e Ugo Fratesi, professor no Politécnico de Milão.

A geógrafa e o economista levaram o tema das disparidades regionais à Conferência Internacional EDULOG 2017 sobre “Desenvolvimento Económico nas regiões da Europa do Sul: Políticas e Ensino Superior”, que decorreu no Porto entre 25 e 26 de maio.

Madalena Fonseca falou da importância de compreender o funcionamento das regiões que compõem os quatro países do Sul da Europa - Portugal, Espanha, Itália e Grécia – como condição para desenvolvimento regional. “Há uma geografia comum, onde o desemprego é o fator mais relevante que modela este mapa e explica a sua condição periférica. A população com mais de 65 anos está a aumentar nos quatro países, acima da média da União Europeia. E, por isso, mesmo que não façamos nada, o envelhecimento da população vai permitir alcançar algumas das Metas da Estratégia Europa 2020.”

Os baixos níveis de produtividade, segundo Ugo Fratesi, são outro ponto fraco em comum nos quatro países. Tomando como exemplo, Portugal e Itália, o investigador aponta o declínio em alguns setores para dizer que “não conseguiram criar emprego, nem aumentar a produtividade, logo, não crescerem no PIB”.

Como aumentar a produtividade? É a grande questão. “Através da inovação e da reconversão da economia estrutural e das várias fases do processo de produção”, responde o perito em economia regional, antecipando algumas dificuldades: “É difícil por em prática o segundo ponto porque significa que muitas pessoas sejam retiradas dos seus empregos antes que outras surjam formadas para novos empregos.”

Dos gráficos que comparam os quatro países nos indicadores económicos e sociais que mais importam, Fonseca e Fratesi retiram uma conclusão: as regiões precisam de um upgrade. “Políticas regionais que invistam em recursos de capital territorial são mais eficazes”, explica o economista. “Políticas que analisem as regiões, identifiquem as fraquezas, sendo que algumas são difíceis de identificar. É mais fácil investir em infraestruturas, mais difícil será se for preciso investir em software...”, conclui.

Para lidar com esta dualidade, John Edwards, colaborador do Centro Integrado de Pesquisa da Comissão Europeia, em Sevilha, poderá ter uma solução. Olhar para as oportunidades que cada região apresenta e investir é o foco da “especialização inteligente. O que é? “Mais do que uma teoria é uma política”, explica Edwards é especialista em “smart specialization”, a designação da expressão em inglês.

“É inteligente porque é baseada na evidência e no conhecimento tecnológico; é especializada porque foca o investimento nas vantagens e forças regionais, pode não ter foco num único setor, mas em sectores cruzados.”

Edwards percorre todos os cantos da Europa, de região em região, acompanhando a implementação de políticas de “especialização inteligente”. Muitas vezes, é ele quem faz as pontes que ligam universidades e empresas. Por isso, está à vontade quando diz que “a inovação é uma área negligenciada nas universidades” e denuncia uma certa confusão, feita nas instituições de ensino superior, entre os conceitos inovar e investigar: “Inovação não é investigação”.

Andrés Rodriguez-Pose, professor de Geografia Económica na London School of Ecomonics, explica como as desigualdades territoriais justificam algumas tendências políticas, tais como os resultados das últimas eleições americanas, os votos na direita francesa ou a saída do Reino Unido da União Europeia.

“O problema vai além da economia, é político”, defende Pose. Prova disso outra dualidade da qual depende o desenvolvimento regional e dos países. Investir em infraestruturas, transportes, acessos, como fizeram Portugal e Espanha com a ajuda do investimento europeu? Ou investir em competências humanas, formação, educação e investigação? “O peso destes dois modos de investir o capital varia de acordo com a teoria [política] dominante”, responde Pose.

Ao fim de 30 anos de investimentos europeus nas regiões, o que ficou? Frustração, responde Pose, partilhando a mesma visão de Madalena Fonseca. “Em Espanha, como em Portugal, adoramos infraestruturas, porque temos muitas empresas de construção”, ironiza o investigador.

Além dos quilómetros de asfalto, não faltam mais exemplos de má despesa pública. Pose elege algumas como a ligação ferroviária entre Madrid e Barcelona, onde os ganhos não cobrem os custos com a manutenção da linha; a estação de comboios de Sevilha onde passa apenas um comboio, um aeroporto fantasma que foi à bancarrota, a autoestrada A1 que começou a ser construída na Grécia nos anos 70 e só ficou concluída este ano e em Portugal as três autoestradas que ligam o Porto a Lisboa.

Como evitar o desperdício de investimento? “Precisamos de políticas diferentes para regiões diferentes e as políticas europeias ou periféricas podem não resultar. É preciso aproximações mais sensíveis e evitar a síndrome dos elefantes brancos” conclui Pose.

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