Políticas

Empresas e escolas unidas para despertar o gosto pela ciência e a tecnologia

por EDULOG


13 de abril de 2017 |

Na Holanda, a Philips conseguiu pôr alunos do 1.º ciclo a criar jogos para os seus telemóveis. Já a empresa Organon, ensinou-os a fazer medicamentos, em apenas três lições de química. A entrada das empresas na esfera educativa, através do projeto JET-NET, causou impacto na escolha da carreira de centenas de jovens. Em Portugal, dá-se o primeiro passo envolver as escolas em ações que despertem o interesse dos alunos nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Há menos jovens a escolher cursos superiores nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (CTEM). Tomando como exemplo as engenharias, nos últimos 16 anos, o número de alunos não atinge os 30% do total dos candidatos que ingressam nas universidades e politécnicos. Especialistas defendem, porém, que o crescimento económico e a empregabilidade qualificada dos jovens assenta no aumento de licenciados nas áreas CTEM. Mas o interesse pela ciência, tecnologia, engenharia e matemática, tem de começar muito antes do final do 12.º ano.

Despertar o entusiasmo das crianças por profissões científicas requer uma estratégia. É neste contexto que surge um memorando de entendimento entre a Sonae, a Cerealis e a Unicer, o Ministério da Educação e o programa educativo municipal Porto de Futuro. Dele, resultarão ações dirigidas aos alunos do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico e do secundário, focando as disciplinas de matemática e as áreas disciplinares de ciências experimentais, no básico, e os cursos científico-humanísticos de ciências e tecnologias, no secundário.

O projeto estreia-se nos agrupamentos de escolas do Cerco, Clara de Resende e Rodrigues de Freitas, mas no futuro poderá alargar-se a outros estabelecimentos. A iniciativa conta ainda com mais parceiros, a Porto Business School, a PricewaterhouseCoopers e o Edulog – Think Tank da Fundação Belmiro de Azevedo.

A inspirar a iniciativa que, agora, se implementa em Portugal, estão dois projetos europeus. Um é o EU STEM Coalition que pretende sensibilizar governos, indústria e educação para o papel crucial do ensino nas áreas STEM, sigla inglesa para designar ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

A outra inspiração vem do projeto holandês JET-NET que resulta de uma parceria entre empresas e escolas básicas e secundárias, com o objetivo de criar iniciativas para estimular nos jovens o gosto pela ciência, tecnologia e engenharia. No período de 2000 a 2007, a intervenção resultante deste projeto permitiu aumentar em 6,2% o número de alunos a seguir estudos nestas áreas. Como?

O que podem fazer as empresas nas escolas?

Em três lições de química, alunos holandeses, com idades entre os 8 e os 9 anos, aprenderam a criar os seus próprios medicamentos. Ficaram a perceber, com a empresa Organon, como conceitos ensinados nas aulas podem ser aplicados em situações práticas.

A empresa Unilever levou a cinco escolas o “Dia da Maionese”, para mostrar aos alunos como funciona a industria alimentar e da nutrição. Por se tratar de um produto tão óbvio, raramente pensamos na sua origem. A maionese é uma emulsão, por isso, parte do trabalho desenvolvido foi levar os alunos a perceber os detalhes das emulsões.

A Philips pôs um manual básico de programação nas mãos de alunos do ensino primário e conseguiu que eles criassem jogos para os seus telemóveis. Estes são apenas três exemplos de ações resultantes do projeto holandês JET-NET que em sete anos promoveu a entrada do mundo empresarial no sistema de ensino. Proporcionando, desta forma, o contacto entre profissionais de 29 empresas e centenas de estudantes de 150 estabelecimentos de ensino básico e secundário geral e profissional.

Os resultados conseguidos na Holanda tiveram eco na União Europeia. Apontando o JET-NET como exemplo de boas práticas, em 2010, Hans van der Loo, chefe de ligação da União Europeia na Royal Dutch Shell, debruçava-se sobre o problema da falta de graduados em matemática, ciência e tecnologia na Europa, argumentando sobre o que poderia ser feito para inverter esse cenário.

“A escassez nestas disciplinas já é iminente, exigindo medidas para reduzir substancialmente esta tendência decrescente na matrícula em estudos técnicos”, escrevia no artigo de opinião “Engineering Solutions are no Silver Bullet, but… there is no Sustainable Future without them”, publicado na Feani News, a publicação dos engenheiros europeus.

Qual a origem do problema? Entre 1998 a 2006, a Europa registava dados demográficos negativos e uma estabilização do acesso ao ensino superior. A estes dois fatores, somava-se, segundo Hans van der Loo, um despoletar de “atitudes negativas em relação à educação e ao trabalho em ciência e tecnologia entre os jovens”. Algo que teria consequências adversas, alertava Hans van der Loo, ao nível do aumento da procura de profissionais nesta área e, por conseguinte, na falta de mão-de-obra.

Parte da solução para aumentar o interesse dos alunos nas áreas e, posteriormente, em carreiras ligadas à matemática, ciência e tecnologia, escrevia Hans van der Loo, poderia passar por uma colaboração entre escolas e associações empresariais, sobretudo de engenharia. Articulando, por exemplo, o trabalho de professores e consultores sobre carreiras.

Mais CTEM nas escolas do norte

Portugal regista também um decréscimo dos percursos escolares científicos e tecnológicos. Acompanhando a tendência europeia. No norte, deu-se o primeiro passo para a criação de programas que motivem os estudantes para a ciência, tecnologia, engenharia e matemática (CTEM).

Durante a assinatura, a 4 de abril, do memorando de entendimento entre as empresas Sonae, Cerealis, Unicer, o Ministério da Educação e o programa educativo municipal Porto de Futuro, Guilhermina Rego, vice-presidente da Câmara do Porto, argumentou sobre a importância de mostrar aos jovens como o desenvolvimento de competências CTEM pode ser uma aposta no futuro. “A Europa tem de investir num mercado de trabalho que satisfaça as exigências da inovação para o crescimento da atual economia no conhecimento.”

Guilhermina Rego referiu ainda que de 2003 a 2013, o número de pessoas a trabalhar em profissões CTEM cresceu 12%, as profissões CTEM passaram a representa 7% do mercado de trabalho, “e a procura continua a aumentar, estando quantificada pela União Europeia a necessidade de mais de meio milhão de investigadores nos próximos anos”. Por isso, a vice-presidente da Câmara do Porto, espera que a iniciativa possa contribuir para a atenuar a emigração altamente qualificada, “que coloca em risco a transição [do país] para uma economia de conhecimento, competitiva e dinâmica.”

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