Análise

Sem o apoio dos professores, “é improvável” ter alunos a aprender sozinhos online, adverte a OCDE

por EDULOG


4 de junho de 2020 |

Pelo modo como a escola usa a tecnologia, a OCDE antevê a resposta do sistema educativo no ensino à distância. Sem aulas presenciais, o sucesso escolar dos alunos vai depender ainda mais da relação de proximidade com os professores. Mais que o acesso livre a recursos educativos digitais, na atual crise, importa manter relações sociais efetivas entre famílias, professores e alunos.

Quando se perspetiva, no próximo ano, a continuidade do ensino à distância - num misto de aulas presenciais e estudo em casa -, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) avisa que os sistemas educativos não estão preparados para as oportunidades de aprendizagem do mundo digital. Como chega à conclusão? Através da análise de dados recolhidos no último Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA).

São muitas as implicações de estudar em casa. Antes de analisar o acesso dos alunos ao mundo digital, a OCDE começa pelo que considera serem os “dados básicos”. Mostrando, por exemplo, como em média, nos países que a compõem, 9% dos alunos de 15 anos que participaram no PISA em 2018 não têm sequer um lugar tranquilo em casa para estudar. Na Indonésia, Filipinas e Tailândia são mais de 30%. Em Portugal serão 5% os estudantes a quem faltam estas condições mínimas.

Ter um local adequado ao estudo “é um bom começo”, reconhece a Organização. Ter em casa acesso a um computador é, no entanto, uma condição óbvia para aprender à distância. Requisito garantido a mais de 95% dos alunos na Dinamarca, Eslovénia, Noruega, Polónia, Lituânia, Islândia, Áustria, Suíça e Países Baixos. Mas apenas a 34% dos alunos na Indonésia. E a mais de 90% dos jovens portugueses avaliados no PISA 2018. As assimetrias veem-se tanto entre países como dentro de fronteiras. Nos EUA, exemplifica a OCDE, praticamente todos os estudantes de escolas favorecidas têm computador em casa; nas escolas desfavorecidas, três em cada quatro. No Peru a diferença é de 88% dos alunos de escolas privilegiadas, para 17% nas desfavorecidas.

Outro requisito para aprender online é a Internet. Ora, há países onde o acesso à Internet em casa é quase universal. Noutros, abrange metade dos jovens de 15 anos. A OCDE coloca Portugal no primeiro grupo. A realidade tem sempre duas faces. No México, por exemplo, 94% dos jovens de 15 anos oriundos de grupos sociais privilegiados têm Internet em casa, por comparação a 29% dos jovens de origem desfavorecida.

A geografia dos países é também determinante no acesso à rede, lê-se no relatório “Learning remotely when schools close: How well are students and schools prepared?”, que tem por base amostras representativas de 79 sistemas educativos, envolvendo mais de 600 mil jovens. Os números referem-se à média dos 36 países da OCDE.

O ensino online não depende diretamente das escolas. Contudo, a OCDE admite que pela relação das escolas com a tecnologia se antevê a resposta do sistema educativo aos desafios do ensino à distância.

Segundo a Organização, o sucesso escolar de muitos alunos nos próximos meses - em Portugal, talvez até no próximo ano letivo - “vai depender de forma crítica da sua capacidade de manter uma relação próxima com os professores”. Isso, acrescenta, será “particularmente verdadeiro” para os alunos desfavorecidos. A quem poderá faltar o apoio dos pais, a resiliência, estratégias de aprendizagem ou a motivação para aprender por si próprios.

O PISA 2018 revela outro aspeto importante: mesmo entre os alunos de 15 anos, apenas um em cada nove foi capaz de distinguir factos de opinião. Mas fizeram-no com base em dicas implícitas relativas ao conteúdo ou à fonte da informação. Assim, “sem a orientação e o apoio consideráveis dos professores, é improvável que os alunos possam navegar por conta própria no mundo do ensino online”, adverte a OCDE.

Equipamentos

Para cada aluno de 15 anos, existe quase um computador para fins pedagógicos disponível na escola, em média nos países da OCDE. Significa que a proporção de computador por aluno é igual a 0,8. Na Áustria, Islândia, Luxemburgo, Macau, Nova Zelândia, Reino Unido e EUA, a proporção é de 1,25 ou mais. Na Albânia, Brasil, Grécia, Kosovo, Montenegro, Marrocos, Turquia e Vietname, existe apenas um computador disponível para cada quatro alunos (proporção é igual a 0,25) ou menos.

O relatório da OCDE não apresenta dados sobre Portugal. Mas a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência contava em média um computador para quatro alunos, no ensino básico e secundário no ano letivo de 2016/2017 (proporção 0,25).

Na maioria dos países, há mais equidade na distribuição de computadores nas escolas do que em casa, diz a OCDE. Mas as escolas favorecidas estão melhor equipadas. Mas nem sempre mais computadores é melhor. O PISA mostrou uma associação negativa entre computadores por aluno e pontuações obtidas na área da leitura. Um computador a mais por aluno significa menos 12 pontos antes de considerar outros fatores; e menos seis pontos depois de ser considerado o perfil socioeconómico dos alunos e das escolas.

A evidência sugere que fornecer a tecnologia não é suficiente para melhorar a aprendizagem, reforça a OCDE. E é também “um sinal de alerta no momento em que a aprendizagem online se tornou a única opção”.

Computadores fixos nas escolas são inúteis quando os alunos precisarem de aprender em casa, corrobora a OCDE. Por esse motivo, considera encorajador que 40% de todos os computadores disponíveis nas escolas para os jovens de 15 anos sejam portáteis. Ainda que existam disparidades.

Nas escolas, por cada 10 computadores existentes quantos são portáteis? Nove na Dinamarca, Noruega, Singapura e Suécia; oito nos EUA; três em 50 países e economias da OCDE; apenas um no Chipre, Geórgia, Jordânia, Malta, Marrocos, Filipinas e Tailândia. São exemplos da disparidade do “parque tecnológico” dos países com mais ou menos rendimentos.

As escolas favorecidas têm também mais portáteis, em média nos países da OCDE e em 21 sistemas educativos que participaram no PISA 2018. E mesmo o aumento de dispositivos, registado entre 2015 e 2018, ficou a dever-se a ganhos entre as escolas favorecidas, o que agravou as disparidades.

Competências

Que capacidade têm as escolas de melhorar o ensino através do uso de ferramentas digitais? Para encontrar a resposta, a OCDE analisa vários dados recolhidos nos inquéritos aos diretores das escolas que participaram no PISA 2018.

65% dos jovens de 15 anos, em média nos países da OCDE, frequentam escolas cujo diretor considera o corpo docente competente, do ponto de vista técnico e pedagógico, para lecionar recorrendo a dispositivos digitais. Em Portugal, a percentagem fica pouco acima dos 60%. Daqui a Organização antevê quão necessária será a formação de professores para que os sistemas educativos possam dar resposta ao ensino com recurso às tecnologias.

Diferenças relacionadas com o estatuto socioeconómico das escolas permitem aos investigadores concluir que os estabelecimentos de ensino “podem reforçar, em vez de moderar, a desvantagem que advém do contexto familiar dos alunos”. Na Suécia, entre as escolas favorecidas, a percentagem é de 89%, mas apenas 54% nas escolas desfavorecidas.

E quanto aos professores, têm tempo suficiente para preparar as aulas integrando ferramentas digitais? Cerca de 60% dos alunos, em média nos países da OCDE, estão em escolas onde diretores reportam que sim. Não chegam aos 50% em Portugal. No geral, a percentagem varia de quase 90% nas quatro províncias chinesas a pouco mais de 10% no Japão.

Cenário igual no que toca à possibilidade de os docentes terem à sua disposição recursos profissionais eficazes para se aventurarem no uso da tecnologia. Cerca de 55% dos alunos frequentam escolas onde os professores são incentivados a integrar ferramentas digitais na sala de aula, ou têm a assistência técnica qualificada.

A realidade nas escolas portuguesas fica abaixo da média dos países da OCDE: 40% dos alunos frequentam escolas onde os professores recebem incentivos para lecionar com recurso ao digital, menos de 30% estudam em escolas onde existem equipas de apoio técnico.

Plataformas eficazes

“Talvez o que conte mais nesta crise é o acesso e a disponibilidade de plataformas online eficazes para a aprendizagem”, reflete a OCDE. Quase metade dos alunos de 15 anos da OCDE estão matriculados em estabelecimentos de ensino cujo diretor diz que a escola dispõe de uma plataforma eficaz de apoio à aprendizagem online; 35% dos alunos portugueses também.

De novo, a realidade entre países difere. Frequentam uma escola que dispõe de uma plataforma eficaz de aprendizagem online: nove em cada 10 alunos em Singapura, nas quatro principais províncias chinesas, em Macau (China) e na Dinamarca; menos de três em cada 10 na Argentina, Costa Rica, Kosovo, Panamá, Luxemburgo, Japão, Peru, República da Macedónia do Norte, Bielorrússia e Marrocos.

O PISA 2018 quis saber se as escolas tinham orientações formais ou práticas específicas focadas na utilização eficaz e segura das tecnologias digitais na sala de aula.

Das respostas ressalta que diretores e professores refletem, com regularidade, sobre o uso pedagógico das tecnologias digitais (63% dos alunos frequentaram escolas que o fazem). Os diretores afirmam ter documentos escritos sobre essa utilização (62% dos alunos) e programas específicos para ensinar os alunos a usar a Internet de forma responsável (60% dos alunos).

Menos usual entre os países da OCDE é as escolas terem um programa específico para promover a colaboração entre professores no uso de ferramentas digitais (36% dos estudantes frequentavam escolas que o tinham) ou um horário agendado em que os professores se reúnem para compartilhar, avaliar ou desenvolver recursos ou métodos de ensino digitais (44% dos alunos).

Na atual crise, “a tecnologia digital encerra a grande promessa de possibilitar aos alunos acesso a um ensino de elevada qualidade”. No entanto, reforça a OCDE, “a maioria dos sistemas educativos tem de garantir que a tecnologia não agrave as desigualdades existentes”. Não basta o acesso livre a recursos educativos, considera a Organização, é preciso manter relações sociais efetivas entre famílias, professores e alunos, sobretudo os mais desfavorecidos.

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