Análise

A ciência e o conhecimento para o dia-a-dia

por José Ferreira Gomes


6 de julho de 2017 |

José Ferreira Gomes, coordenador da Casa das Ciências, escreve sobre a evolução da ciência e o seu impacto na sociedade portuguesa do século 20 até à atualidade.

O conhecimento científico é construído mediante o teste de hipóteses e só é considerado conhecimento científico o entendimento da realidade material que possa se confirmada ou infirmada pela experiência.

Com o ensino obrigatório limitado a três ou quatro anos, qual era o conhecimento considerado essencial em meados do século 20? Para além do ler, escrever e contar, a “escola primária” procurava dar meios de sobrevivência numa sociedade em que a maioria das pessoas praticava e sobrevivia numa agricultura de subsistência.

As deslocações obrigatórias não iam além do percurso a pé à feira para participar numa incipiente economia de trocas comerciais, mas uma família de agricultores tinha muito poucas necessidades a satisfazer no exterior à sua courela. Algum vestuário e poucos utensílios domésticos e de trabalho no campo. Sim, o ferro era a matéria-prima mais procurada para estes utensílios de fabrico externo. E esse ferro era importado de Inglaterra!

Mas a República precisava de cidadãos e o serviço militar era a prova de iniciação geral. Para isso, era preciso conhecer as linhas férreas com todas as estações e apeadeiros e pontos de conexão. Bastavam algumas noções de higiene pessoal apoiadas numa anatomia rudimentar. A compreensão do ciclo anual agrícola poderia beneficiar de algumas noções sobre o sistema solar de Copérnico com as fases da lua e até uma explicação científica dos eclipses. Bastava e até era excessiva na perceção de boa parte da população. Não era estranho vermos a GNR a ameaçar os pais recalcitrantes a quem os braços infantis faziam mais falta nas lides campestres.

Um serviço militar curto levava os rapazes ao espaço urbano que se mantinha estranho às necessidades e perspetivas de vida da grande maioria. O início da guerra de África alterou este estado de coisas. A maioria dos soldados era chamada a dois anos de serviço em África com uma remuneração (que não tinha no serviço obrigatório tradicional) e um convívio próximo com oficiais milicianos. Esta experiência poderá ter promovido uma quebra da rigidez social anterior e criado expectativas que o regresso aos campos não podia satisfazer.

A emigração para uma Europa enriquecida pelos decénios dourados do pós-guerra, aparecia como quase única alternativa. Mas aí começava a faltar uma educação mais longa e amarrava os nossos emigrantes à base da escala social da França ou da Alemanha. Tardiamente, Portugal acordou para a necessidade de prolongar o ensino obrigatório com o ciclo preparatório (o 5.º e 6.º anos do ensino básico atual) e a criação de escolas dispersas por todos os concelhos. Timidamente, a educação científica foi alongada.

O conhecimento científico é construído mediante o teste de hipóteses e só é considerado conhecimento científico o entendimento da realidade material que possa se confirmada ou infirmada pela experiência. A disponibilidade para corrigir erros é permanente. Resulta daqui que a segurança do conhecimento nunca é absoluta e é sempre transitória. Mas o método científico tem-se mostrado extremamente robusto. Mais do que erros corrigidos, tem aprofundado a compreensão da realidade e criado quadros mais amplos de compreensão. Progressivamente, passamos de uma fase de descrição factual para o enquadramento do fenómeno observado num espaço cada vez mais amplo e geral do que chamamos compreensão.

A medicina é um bom exemplo do aprofundamento do conhecimento científico. A prática da medicina acompanhou a humanidade desde sempre mas o método científico chegou muito tarde. Se a prática da tentativa e erro permitiu afinar algumas técnicas de tratamento, não deixa de ser verdade que o lado psicossomático foi sendo alimentado pela imaginação de charlatães bem sucedidos. E esta realidade não parece ter sido ultrapassada.

As recomendações dietéticas foram e são ainda hoje um caso em que a extrema complexidade da realidade e a necessidade de chegar a uma “verdade” em cada época levou a frequentes inversões de recomendações. O vinho já foi um fator curativo para depois ser a causa de todos os males e chegar a recomendações seletivas. O azeite de gordura base da alimentação, passou a condenado pelo aparecimento de óleos vegetais poli-insaturados, regressando mais recentemente. As causas da colestrolemia mantém uma discussão científica que chega aos media e à prática clínica corrente.

A ciência lida ainda mal com a complexidade, seja na biologia, seja no clima. Os progressos são inegáveis mas, à falta de um bom modelo de causas primárias verificadas em todas as suas consequências, temos de recorrer à busca de correlações estatísticas que, tentativamente, são entendidas como relações de causa-efeito.

A compreensão dos movimentos dos corpos regista um sucesso indiscutível como teste do método científico. A Mecânica de Newton (1666) permitiu todos os movimentos observados desde a nossa escala de observação terrestre até aos movimentos dos planetas do sistema solar. Um quadro de compreensão que pareceu completo e definitivo durante mais de 300 anos falhou na explicação do muito pequeno à escala atómica e molecular. A nova Mecânica (1905-1915-1925) não veio por nada em causa no espaço de aplicação tradicional da compreensão de Newton mas veio propor um quadro muito mais amplo de compreensão do muito pequeno (subatómico) e do muito rápido, a velocidades próximas da velocidade da luz.

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