Estudos

Chumbam por falta de competências na leitura

por EDULOG


23 de junho de 2017 |

A retenção no 1.º ciclo deve-se à falta de competências na leitura. O problema está no ensino e na aprendizagem, dizem os autores do mais recente estudo “Aprender a ler e a escrever em Portugal”. Baixar a taxa de reprovações passa, por exemplo, por aumentar o acesso às TIC, a livros, a materiais ou a atividades que ajudem a melhorar esta competência. Mas também é preciso apoiar as famílias.

Os alunos reprovam no 2.º ano por dificuldades ao nível da leitura. Não leem bem, não escrevem como deviam e não compreendem as palavras. Esta é a principal causa da retenção entre os seis e sete anos de idade em 44% dos casos, em15% o problema é a falta de concentração e em 10% as dificuldades de aprendizagem.

A conclusão é do estudo “Aprender a Ler e a Escrever em Portugal”, coordenado pelas ex ministras da Educação Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada, juntamente com João Mata e Teresa Calçada. O estudo realizado em 2013/2014 foi conduzido em parceria com a EPIS -Empresários pela Inclusão Social e o Fórum das Políticas Públicas e incidiu em turmas do 1.º e 2.º ano de 127 escolas das 541 consideradas de insucesso escolar. As taxas de retenção no 1.º ciclo são altas: 17% dos alunos chumbaram pelo menos uma vez nos quatro primeiros anos de escolaridade, em 2015. Colocando Portugal em segundo lugar na lista dos países com mais reprovações nesse ano, apenas suplantado pelos 20% da Bélgica. E bem acima dos 7% de chumbos em média nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Em 2014/2015, 10,3% dos alunos portugueses chumbaram no 2.º ano.

Os dados do estudo mostram ainda que no território de Portugal continental, quase dois terços das escolas com mais insucesso e retenção estão localizadas em 14,4% do país. Há mais retenções nos concelhos do sul e menos nos do norte. Mais retenções nos concelhos do interior e de menor dimensão e em alguns concelhos da periferia da cidade de Lisboa, como Amadora, Loures, Almada, Setúbal. Em Lisboa existem 39 escolas com insucesso, representando 42% do total de escolas, o Porto tem 10 escolas de insucesso, apenas 20% do total de estabelecimentos nesta área.

Causas da reprovação precoce

Porque reprovam os alunos? A primeira conclusão do estudo aponta dificuldades de aprendizagem na leitura, que são, no entanto, atribuídas a fatores externos à escola. Como, por exemplo, a imaturidade dos alunos, a falta de estímulo ou de hábitos de leitura em casa, mas também a falta de pré-requisitos ou acompanhamento familiar.

Talvez por isso, 80% dos professores, cujas turmas entraram nesta amostra, acreditam que não é possível eliminar o insucesso. Porque na sua origem está o contexto familiar, dizem 23% dos docentes. Apenas 5% dos inquiridos admitem que as razões do insucesso podem estar ligadas à organização do sistema de ensino, 3% às capacidades dos alunos.

Perante “a situação de os alunos não atingirem os objetivos esperados a leitura por razões e condições que a escola não consegue superar nem contrariar, os professores consideram uma única decisão a tomar: a reprovação”, lê-se no estudo. Razão pela qual, 82% dos professores e 59% dos dirigentes escolares não concorda com a proibição de chumbar no 1.º ano.

Os autores do estudo referem que “a repetência é vista como uma oportunidade e não como um problema” uma vez que 87% dos professores consideram que chumbar os alunos tem vantagens. Que vantagens são essas? 71% dos professores acredita que a repetição de ano ajuda na aquisição e consolidação das aprendizagens, 12% na recuperação das dificuldades, 10% na maturidade, 4% a ter mais tempo para a aprendizagem e 3% no reforço das aprendizagens.

Distanciamento alimenta retenção

A elevada percentagem de alunos com dificuldades de aprendizagem da leitura, a naturalização dessas dificuldades e a convicção positiva acerca da reprovação, explicam o problema da reprovação precoce. E são, também, um primeiro sinal de um processo de distanciamento dos professores e das escolas em relação às práticas, aos debates científicos e aos recursos e soluções possíveis para combater o chumbo, escrevem os autores do estudo. Ora, este distanciamento, “afasta mais a possibilidade de soluções alternativas”, lê-se.

As escolas em que há uma elevada percentagem de alunos de insucesso “não conseguem, nem compensar nem contrariar a força desses défices”. O que evidencia um segundo sinal de distanciamento social e cultural das famílias dos alunos em relação à escola, dizem os autores.

Quando os alunos não aprendem a ler, a reprovação deixa de ser vista como um problema de ensino e passa a ser apenas “mais uma situação para gerir”. Em termos de: “o que fazer com os alunos repetentes desfasados da idade e do nível de conhecimento, e o que fazer com a indisciplina, absentismo, desinteresse e desmotivação dos alunos que perderam o comboio dos da sua idade?” Segundo os autores, este será um terceiro sinal de distanciamento. “O quarto sinal de distanciamento reside na forma como as desigualdades territoriais se traduzem no interior dos agrupamentos em distância organizacional”, acrescentam.

Os processos de distanciamento alimentam a resiliência da retenção precoce, concluem os autores: “O insucesso deixa de ser visto como um problema de ensino e aprendizagem e passa a ser visto como um problema de gestão e de organização pedagógica.”

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